top of page

Senhores Cores
e outros Contos

Publicado em  2008, o livro é uma coletânea de contos.

Fotos do lançamento

Prefácio  por Fátima Quintas

Se quiser adquirir um exemplar, entre em contato conosco através de mensagem de e-mail no "Mande ver!"

ODE À CRIATIVIDADE

 

Conheci Carlos Dantas na Rádio Universitária AM, local onde trabalhava, numa manhã de quinta-feira, lembro-me bem. Cumprimentei-o e ele se aproximou gentilmente.  Conversa vai, conversa vem, um bate-papo informal, alguns planos de futuro, risos e uma certa ironia, tudo isso evidenciava a agilidade de seu pensamento, agudeza perceptiva, fina abstração, devaneios em abundância. Em poucos minutos apresentou-se como uma pessoa singular: inquieta, corajosa, obstinada, sempre na busca de novos caminhos, pronta a enfrentar desafios e sonhos, os possíveis e os impossíveis. Que chegassem!... Não me pareceu temeroso com o amanhã. O que mais me chamava a atenção era a sua curiosidade em conhecer, compreender, empatizar com os detalhes da rotina que o rodeavam; não uma curiosidade bisbilhoteira, mas uma ânsia fremente em vasculhar o ignorado, quase a tocar no intangível. De que gostava? De tudo que a vida lhe proporcionasse. Nele habitava um mistério que nunca fui capaz de desvendar. Que bom! Os mistérios se tornam mais mistérios quando aderentes aos círculos fechados. 

Pois é esse mistério que o faz múltiplo, plural, um eremita a percorrer montanhas e planícies. Aqui, acolá, há algo genuíno no seu cotidiano, uma descoberta, outra, e assim transita entre as veredas e os becos da estrada. Carlos me surpreende, sempre, sempre, porque nunca sei o que ele será capaz de imaginar. E como imagina! Espero que continue nessa agitação interior porque dela advém um mar de interjeições, lacre de sustentação das visões oníricas. A rotina seria monótona sem os pontos de exclamação, sem os recuos e os avanços, sem as manhãs ensolaradas, sem os crepúsculos sombrios, sem o riso maroto de um menino que não cessa de redimensionar o mundo, redondo, quadrado, sem forma... E ninguém se assuste com as possibilidades de um pensamento que não pára de pensar. Pensante pensamento. 

 

No meio de um turbilhão de atividades, ora aqui, ora ali, algures, alhures, Carlos Dantas me aparece com um livro de Contos. Já pronto. Concluído. Não, não. Não foi bem assim: primeiro um conto, depois outro, depois todos. Confesso que não tive tempo de acompanhar o processo, ele simplesmente pulou etapas, como fazem aqueles que dão vazão às suas belas pulsões. Da noite para o dia, a palavra que parecia oral, transformou-se em escritura sólida e firme. Cada letra, com sentido e referência; cada fonema, com o som preciso; cada frase, com a clareza que se lhe pede.

Os seus contos possuem uma peculiaridade que não devo deixar de assinalar: a concisão da palavra dentro de uma riqueza de imagens. Alguns curtos, bem curtos, suficientes, entretanto, na possibilidade da emissão icônica. “Na aula, alguém disse: — Faltou! O lençol cobria os corpos nus e cansados da noite de amor. Abraçados.” Poucas linhas para dizer tanta coisa! Outros longos, com descrições detalhadas, com intenções de questionar a realidade, como “Amigos Noturnos”, um conto na primeira pessoa, no qual o autor se deixa invadir pela sua própria ficção. Ou talvez a ficção nele se entranhe como algo que não se aparta da individualidade. Há um fio condutor na narrativa, um Carlos que brinca com as coisas que lhe são próximas e distantes. O seu tom varia em angulações complexas e indagativas. Observa-se o homem em constante crise com os entornos, a destacar que “a criatura do dia” pode não ser “a criatura da noite”. Ou vice-versa. Ruídos e não ruídos: um silêncio que fala alto, não carece de mediadores, basta-lhe a força da linguagem. Carlos Dantas escreve em voz baixa, aguardando que o leitor decifre os enigmas. Aí se encontra o sumo da sua interioridade: um salto que vai além do enunciado, a sugerir, a inspirar, a permitir que os outros o decifrem, sem fazer uso de excessos de explicações. É importante frisar que a boa literatura foge de francas manifestações, embrenhando-se no fenômeno do sugerir apenas. Sim, sugerir, para ressignificar o dito. A transfiguração do fato é a premissa básica do escritor. Descrevê-lo é uma técnica que se aprende com facilidade; expressá-lo, todavia, com estilo e criatividade corresponde a assegurar-lhe um ciclo perene; a ofertar-lhe a transcendência para além dele; a afiançar-lhe ganhos de continuísmo.

 

No autor, o ato criativo transborda, tal qual as andorinhas que mudam de estação para melhor se ajustarem ao clima. Não se conforma com a palavra linear; quer ir adiante para acatar os desdobramentos de uma simbologia em duradoura ebulição. E nessa efervescência atemporal, escava os arquétipos, sem medo de desnudar-se nem para si, nem para o outro. A sua criatividade se alia ao temperamento ansioso; digo ansioso numa visão côncava, jamais convexa. Ou seja: um modo de ser muito seu, longe de dispensáveis histrionismos.  O personagem literário é ele mesmo, sem alardes externos, mas com fortes alegorias internas.

Naturalmente que Fernando Pessoa tem razão quando reafirma a sua já conhecida assertiva: “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso, viver não é preciso. Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. A legenda pessoana cabe em Carlos Dantas. Desde que o conheci, percebo-o amante da criação, ponto alto de um viver que não se quer miúdo, tampouco entregue a falsas exacerbações.

 

Em um ritmo original, ao seu modo, quase sempre retraído e silencioso, a olhar de soslaio, com aguda intuição, vai desvendando os segredos que o orbitam. E de posse de um instrumental transfigurador nada pode lhe parecer impossível. Sobretudo a renovação das horas que não cessam de badalar numa sincronia tão igual. Mas cada instante é cada instante. Ao escritor urge reformá-lo para lhe oferecer a transmudação dos tempos. O nada se assemelha ao tudo e o tudo se assemelha ao nada. Daí, os preciosismos dos pedaços do tempo, ele, tão orgulhoso da sua irreversível passagem; irreversível, sim, mas absolutamente desigual na correnteza das badaladas do relógio. O jorro criativo do contista representa justamente a acumulação de horas percorridas em puro ânimo vital.

Se Carlos Dantas reinventa a vida, à Cecília Meireles, seus átimos de instantes são meros recursos enganadores. Porque reinventar não deixa de ser ludibriar a cena em exposição. Os seus contos se mexem em direções opostas, ainda que em permanentes convergências. É o estilo e a forma literária em urdiduras harmônicas, a depender tão-somente da pena do autor. Afinal, a alvorada nasce todos os dias e, para quem a observa, importa a perspectiva do enxergar eufórico, triste, otimista, pessimista, deslumbrado ou pasmo diante do susto de estar vivo. Aí reside o germe de qualquer escritura. A prosa do autor atravessa muitos meandros e cabe ao leitor escolher o compasso da caminhada. Devagar, rápida, em interregnos ou sob a singeleza de uma liturgia religiosa. 

 

O livro se inicia com a força criadora e a inquietação de um Carlos seguramente traquino e sonhador. Prosa gostosa, de entrelinhas instigantes. Nada mais direi. Já falei demais. Agora é com vocês. Ao texto.

Fátima Quintas
Estrada das Ubaias
6 de outubro de 2008.

bottom of page